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30/03/2015 às 19:46:16
Maior estudo já realizado no Brasil vai mostrar quais os fatores de risco para doenças crônicas

Pesquisadora da UFMG realiza exame com retinógrafo em voluntária
créditos: uai

Levantamento epidemiológico de magnitude jamais vista no país quer detectar quais fatores contribuem para aumentar ou diminuir o risco de doenças crônicas não transmissíveis entre os brasileiros adultos. Pesquisadores de seis instituições estão construindo uma base de dados inédita para municiar médicos e o Sistema Único de Saúde (SUS) com informações e referenciais de valores para exames clínicos e laboratoriais tidos, até então, com base somente na população de outros países desenvolvidos, entre eles os Estados Unidos. Os primeiros seis anos do Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (Elsa-Brasil), que se estenderá ao menos pelos próximos 20 anos, já dão sinais de que, numa sociedade marcada pelo perfil heterogêneo do ponto de vista étnico, social, cultural e de comportamento, os parâmetros são diferenciados.

O estudo recrutou 15.105 voluntários, servidores de universidades e institutos de pesquisa públicos, com idade entre 35 e 74 anos, em seis capitais: Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Vitória. A saúde deles está sendo acompanhada desde 2008. Anualmente, são entrevistados por telefone para os pesquisadores acompanharem a saúde deles e, a cada quatro anos, são submetidos a baterias de exames e outras entrevistas, que ajudam a verificar a evolução do quadro de saúde e o que contribui para alguma disfunção que porventura seja detectada. Cerca de 50 pesquisadores das universidades federais de Minas Gerais (UFMG), Rio Grande do Sul (UFRGS), do Espírito Santo (Ufes) e da Bahia (UFBS), da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) estão envolvidos no projeto.

O interesse principal do Elsa-Brasil é avaliar doenças cardiovasculares, hipertensão arterial e diabetes, além de problemas como cognição, depressão, aterosclerose e osteoartrite. Entre os parâmetros biológicos avaliados estão a espessura da camada média-intimal da artéria carótida (o espessamento dela indica o risco aumentado de doenças cardiovasculares); a duração das ondas e intervalos registrados no eletrocardiograma; referências laboratoriais, incluindo hemograma; e exames que verificam a função renal e enzimas produzidas no fígado. Todos podem variar entre grupos populacionais.

“Nós nos apropriávamos do conhecimento produzido nos Estados Unidos e nos países europeus e aplicávamos na nossa população, mas há diferenças culturais, étnicas, de alimentação e do comportamento. O estudo nos trará detalhes da nossa realidade, a partir do nosso conhecimento e do que o mundo tem gerado”, afirma Sandhi Maria Barreto, coordenadora do Elsa-Brasil no estado e professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG. “É importante termos parâmetros próprios para ter condição de interpretar com mais precisão um exame pedido pelo médico”, completa.

PATENTE EM MINAS
A pesquisa gerou, até agora, 55 artigos. Outros 105 estão em andamento, analisando diferentes aspectos. No caso da diabetes, verificou-se que cerca de metade dos indivíduos desconhecia ter a doença – prova de que a incidência da enfermidade no país está subestimada e vai além dos números oficiais. “Temos que nos preparar para isso e evitar que os pré-diabéticos se tornem diabéticos e controlar os doentes”, diz a professora.

Além de publicações em revistas internacionais, o trabalho rendeu ainda, em Minas Gerais, o depósito de patente de dispositivo que ajuda no estudo e no tratamento da osteoartrite. Também conhecida como artrose, é uma doença inflamatória e degenerativa das articulações. O dispositivo é fruto do subprojeto Elsa-Musculoesquelético (Elsa-Me), desenvolvido por pesquisadores da UFMG e que investiga a enfermidade em joelhos e mãos e a dor musculoesquelética em 3 mil voluntários.

Trata-se de suporte de acrílico usado para retificar a posição e permitir que se faça a medida mais correta do joelho e, com isso, facilitar a percepção sobre a possível existência de artrose. Ele substitui o modelo norte-americano, usado apenas em pessoas com estatura superior a 1,60 metro. Também está sendo desenvolvido um software que vai estabelecer parâmetros, correlações e atlas de medidas para a população brasileira que terão amplo uso na clínica médica.

Nas entrevistas com os voluntários, os pesquisadores coletam informações sobre presença de dor em diversos locais do corpo, enquanto um teste conhecido como “levanta-senta-levanta” avalia a força nas pernas. O exame radiográfico das mãos e joelhos identifica alterações compatíveis com artrose. “Um dos grandes problemas de saúde está relacionado às limitações pela dor, um dos principais motivos de perda de qualidade de vida. A ocorrência de sintomas, tipo de dor característica, assim como as limitações que podem estar associadas à presença de alterações radiológicas e sintomas que progridam de forma desfavorável ou não, que levam ao uso de medicação para dor e de anti-inflamatórios poderão ser conhecidos. E o uso inadequado, prolongado ou excessivo desses medicamentos traz comprometimento em diversos campos da saúde”, diz Sandhi.

O software que o grupo está desenvolvendo vai ajudar a padronizar a leitura dos dados obtidos pelo dispositivo. O programa deve identificar o tamanho do espaço articular dos joelhos, que diminui com o agravamento da doença. De acordo com a professora da UFMG, o software possibilitará uma medição semiautomatizada desse espaço, até então verificado manualmente. O novo processo tende a diminuir o tempo de mensuração e o risco de ocorrência de erros.


ELSA-BRASIL

O QUE É?
Com o compromisso social de gerar conhecimento inovador e contribuir para o avanço da saúde pública no país, o Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (Elsa-Brasil) busca identificar fatores – étnico, social, cultural e de comportamento – que influenciam mudanças no estado de saúde, em especial na condição cardiovascular e metabólica dos brasileiros. Dados vão passar a amparar médicos com informações e referenciais para exames clínicos e laboratoriais.

15.015
Voluntários, com idade entre 35 e 74 anos, participam do projeto

20
Anos é o tempo de duração miníma prevista para o levantamento

50
Pesquisadores estão envolvidos na estudo desenvolvido no Brasil

 

Tags:doenças crônicasdoenças crônicas não transmissíveisdiabeteselsa-brasil
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COLUNISTA

PAULO PAIVA

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