Espalhe por aí                  Visitas: 782


29/06/2015 às 05:50:51
Viola brasileira ressurge

Para violeiros e especialistas, imagem do instrumento como algo arcaico e averso ao progresso tem sido superada em prol do resgate das tradições: 'a viola é o instrumento que mais representa a cultura brasileira'
créditos: UOL

Em suas constantes viagens profissionais, o auditor Rui Torneze, filho de um trompetista amador, sempre levava na bagagem, além de roupas e utensílios, seu violão. “Nessa brincadeira de rodar o país, principalmente o interior, conheci a cultura da viola”, conta o músico. De formação clássica, ele foi se aproximando do instrumento que via e ouvia por todo canto que passava. E aprendeu por observação. “Ia anotando, copiando, arremedando os outros.” Passou do violão (seis cordas) para a viola (cinco cordas duplas). Hoje, Rui é maestro da Orquestra Paulistana de Viola Caipira, que acaba de completar 18 anos e é uma das dezenas que se espalham pelo Brasil. Trazida da Europa, a viola já é parte inseparável da cultura popular.
“A viola é o coração da música brasileira”, definiu a pesquisadora Rosa Nepomuceno em seu livro “Música Caipira: da Roça ao Rodeio”. “Se o primeiro brasileiro, até que um E.T. prove o contrário, foi o índio, o segundo foi o caipira, garrado na viola.” E a mistura histórica, de povos e gêneros, fez da viola um instrumento da terra. “Apesar das origens lusitanas, o que se faz hoje aqui é exclusivamente brasileiro”, afirma Rui.
“Os 500 anos que a viola percorreu aqui foram suficientes para ganhar uma cara completamente diferente de Portugal”, acrescenta outro violeiro, João Paulo Amaral, defensor do primeiro mestrado sobre viola caipira no país, em pesquisa sobre Tião Carreiro (1934-1993), um dos grandes nomes do gênero, que por quase 40 anos formou conhecida dupla com Pardinho e influenciou gerações – o sul-mato-grossense Almir Sater, por exemplo, é um discípulo assumido.
“Tião Carreiro é um dos pilares da viola no Brasil. Foi um dos primeiros a ver a possibilidade da viola não só como instrumento de acompanhamento, mas também para fazer solo”, diz João Paulo, que começou tocando violão e guitarra. Graduado em Música na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele estudava jazz e música brasileira instrumental. Aos poucos, foi “voltando às origens”, acompanhando o pai em encontros e pescarias no interior paulista. E ouvindo, e aprendendo.
“É um universo completamente diferente”, conta o músico, destacando a necessidade de uma “técnica mais apurada na mão direita” e os diversos ritmos tocados na viola, como cururu, cateretê, guarânia, toada, pagode caipira, rastapé. Pelo menos 20, estima. “Dentro de cada ritmo, tem variações”, observa João Paulo, que dá aulas na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp, a antiga Universidade Livre de Música) Tom Jobim e na Faculdade Cantareira, ambas na capital, além de oficinas e cursos particulares.
Cultura popular
Chico Lobo sorri à pergunta sobre qual foi a primeira canção que ele tirou na viola – depois de afinada pelo pai seresteiro, de quem ganhou o instrumento quando tinha 12, 13 anos. Ágil, ele imediatamente dedilha os primeiros acordes de Chico Mineiro, em sua viola cheia de detalhes, como nuvens e relâmpagos – cada uma tem seu próprio desenho. Defensor da cultura popular e de formação autodidata, o músico acredita que o uso generalizado do instrumento é também uma reação ao processo de globalização. “As pessoas querem voltar a tocar a sua aldeia.”
E a viola só se manteve viva pelo uso no sertão, no interior, nas festas, como as Folias de Reis, diz Chico Lobo. “Eu sempre quis consumir o Brasil. A viola é o instrumento que mais representa a cultura brasileira. Em Minas, a viola é beira de rio. Não se tem a tradição das duplas caipiras, mas a do violeiro. No Sul, no Mato Grosso, a gente tem as violas mais ligadas às danças. No Nordeste, tem os repentes”, enumera o músico.
Leia também:
Músicos africanos se unem para promover integração entre povos à beira do rio Nilo
Carolina Maria de Jesus revisitada: pesquisas buscam definir estilo e influências de autora de 'Quarto de Despejo'
'Na literatura brasileira, mesmo sobre escravidão, protagonistas são brancos', diz autor de HQ sobre resistência negra
Ele aponta os violeiros, nos primeiros tempos, como cronistas do cotidiano, sua importância nos festejos e em colheitas de mutirão, em uma tradição que também acompanhou o processo de urbanização da sociedade brasileira. “Eles também carregaram a cultura para a cidade grande.” Em breve, Chico Lobo deve lançar o livro “Conversa de Violeiro”, sobre tradições rurais, em parceria com o escritor e tocador Fábio Sombra, além de uma coletânea com participações de Tavinho Moura e Rolando Boldrin.
O jornalista e pesquisador Walter de Sousa, autor do livro “Moda Inviolada: Uma História da Música Caipira”, destaca algumas fases na trajetória brasileira, a partir das influências ibéricas. Vem o período da música gravada, com o pioneirismo de Cornélio Pires, ainda de forma não industrial, o canto em duas vozes (em que se ressalta a dupla Tonico e Tinoco) e uma mistura com ritmos de origem em outros países latinos, como a guarânia, a ranchera e o bolero. Posteriormente, acontece certa “apropriação” da viola pela MPB, com compositores de classe média. Por fim, a viola instrumental e o surgimento de orquestras. “A viola tem um caminho interessante. Fez um passeio pelo universo popular e voltou ao erudito”, diz Walter.
Ele lembra que o instrumento tem origem ibérica – o nome deriva do espanhol vihuela. Da região do Alentejo, em Portugal, surgiu a viola campaniça, que tenta resistir, pelas mãos, entre outros, do violeiro Pedro Mestre, pesquisador das tradições alentejanas, que tem contribuído para a retomada do instrumento no país europeu. Ele e Chico Lobo se encontraram em 2006 – “Esse momento, dois minutos de muito improviso, emocionou as pessoas”, lembra Chico. Desde então, os dois trocam ideias e notas, inclusive com disco gravado. Mais do que um possível encontro entre “mãe” (viola campaniça) e “filha” (caipira), Chico ressalta a “partilha de culturas”.
Imersão cultural
É exatamente essa vivência que Rui Torneze considera importante no mundo da viola. “É um instrumento bem étnico. Você não aprende direito se não fizer uma imersão cultural.” Com esse objetivo, a sede da Orquestra Paulistana de Viola Caipira, na Penha, zona leste de São Paulo, é ambientada – tem horta e fogão de lenha, por exemplo. “Aqui parece uma casa de avó de sítio”, define Rui.
Em setembro de 2001, a partir da orquestra, surgiu o Instituto São Gonçalo – padroeiro dos violeiros –, agora uma organização não governamental dedicada à pesquisa e à divulgação da cultura dita caipira. Teve como padrinhos Inezita Barroso e Pena Branca (José Ramiro Sobrinho), que formou dupla com o irmão Xavantinho (Ranulfo Ramiro Silva).
Walter de Sousa lembra uma entrevista com Pena Branca, que depois de tirar fotografias chama o pesquisador até o quarto e lá sobe em um banquinho para, no alto do guarda-roupa, pegar uma caixa de papelão. “Ói, queria te mostrar isso. É o Grammy, já tinha visto um?”, disse, orgulhoso. Em 2001, ele havia vencido o Grammy Latino de Melhor Disco Sertanejo pelo álbum Viola Caipira, que Xavantinho não chegou a ver – morreu em 1999. Pena Branca se foi em 2010.
O violeiro Chico Lobo. Foto: Paulo Pepe / RBAO pesquisador identifica certa superação de um preconceito que costuma, ou costumava, marcar o gênero. “Isso (preconceito) foi reforçado por algumas figuras, como o Jeca Tatu, personagem criado para representar certa aversão ao progresso. É uma discussão entre o arcaico e o moderno, que marca toda a cultura brasileira. Mas no final do século 20, com a globalização, se perdeu um pouco desse medo e passou a haver uma espécie de orgulho caipira.”
Tradição
Na Orquestra Paulistana de Viola Caipira, tocam músicos de 12 a 82 anos, conta o maestro Rui Torneze. Recentemente, um violeiro, hoje afastado, completou 90 anos. “O nosso maior trabalho é formação de público”, diz. Nas apresentações, o número de componentes varia conforme o pedido. Pode ir de cinco a 60. Ali, não há impedimento sobre o uso de ritmos, o que já chegou a causar estranhamento entre alguns músicos. A orquestra toca de tudo, “qualquer música que seja boa de se escutar”, diz Rui.
O tema leva a uma discussão sobre a preservação da cultura. “A tradição é orgânica, vai se transformando, não é estática”, opina João Paulo Amaral. “Acho que é importante ter todas as formas. Mas é importante também a tradição respirar, senão ela morre”, diz. “O purismo engessa”, afirma Chico Lobo. “Não existe purismo em nenhum produto cultural. Hoje é difícil imaginar o que é genuinamente caipira”, observa Walter de Sousa. “Na minha pesquisa, conversei com vários violeiros que consideram a guarânia um gênero genuinamente caipira. Não dá para estabelecer limites.”
Mas existe, claro, uma essência que se preserva. Chico Lobo costuma repetir uma frase: “Não há como tocar viola e querer ser violeiro sem ser atraído à beleza de suas tradições, causos e crenças, mesmo sendo da cidade grande”.
“Todo o Brasil toca viola”, diz Renato Teixeira, autor, com Almir Sater, de “Um Violeiro Toca”. Ele ressalta algumas das várias possibilidades do instrumento. “A minha música é uma fusão de MPB com música caipira. A influência paraguaia do Almir... O Passoca aplicou Adoniran Barbosa na viola. A viola é um tempero para qualquer música que você precise”, cita Renato. “Eu nunca toquei viola, mas sempre tive um violeiro por perto.”
 

COLUNISTA

PAULO PAIVA

COMPARTILHE O LINK DA MATÉRIA









Música

A Dupla Thaeme & Thiago Publicou em Seu Site Oficial Show na Cidade Rio Pomba MG

Venha conferir todas as informações da Dupla no Site da Rádio Jovem Rio FM

18/03/2016   08:48:50

Ler Matéria

Katy Perry vai até o chão, canta Madonna e encerra Rock In Rio cheia de cores

Diva pop usa seis figurinos durante o show, chama uma fã ao Palco Mundo e tem aulas de português

28/09/2015   06:49:29

Ler Matéria

Don't stop me now', do Queen, é a melhor música para 'se sentir bem'

Pesquisa foi feita com 2 mil adultos do Reino Unido, diz site. 'Dancing Queen', 'Good Vibrations', e 'Uptown Girl' aparecem na lista.

23/09/2015   10:07:15

Ler Matéria

Ranking revela canções de Gonzaguinha mais tocadas nos últimos anos

Lista feita pelo Ecad homenageia os 70 anos do artista, comemorado nesta terça-feira, 22 de setembro

22/09/2015   05:23:01

Ler Matéria

Lucas Lucco e Dennis DJ lançam a música 'Se produz' ouça!

Artistas se conheceram há três meses e decidiram montar a parceria. Canção é considerada um funknejo, mistura de funk com sertanejo.

22/09/2015   02:41:12

Ler Matéria

De body decotado e cavado, Jennifer Lopez rebola e mostra corpão em show

Aos 46 anos, cantora se apresentou em Las Vegas, na noite de sábado (19)

20/09/2015   10:46:35

Ler Matéria

Rod Stewart e Elton John levam pop de veteranos ao 3º dia de Rock in Rio

ngleses de 70 e 68 anos vão ser atrações principais neste domingo (20). Seal e Paralamas completam Palco Mundo; Sunset tem John Legend.

20/09/2015   10:39:01

Ler Matéria

Shows de Rihanna e Queen no Rock in Rio são os mais Comentados na Web

Para a medição, foram analisadas 114 mil menções ao festival e aos artistas no Instagram e no Twitter, desde o dia 1º deste mês até esta quarta

18/09/2015   08:52:34

Ler Matéria



 
   
Cadastre seu e-mail e receba novidades e promoções da Jovem Rio!






  
Copyright © 1998/2015 Todos os direitos reservados!